quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Instinto
Sempre um Poderoso Aliado !









Fernando passeava por Londres, aproveitando os últimos dias de suas férias. 
O dia estava muito agradável e ele queria aproveitar para fazer algumas fotos. 
Ele observava todos os detalhes das ruas por onde passava.
Ele estava sempre em busca de um momento especial. Daqueles momentos únicos que valeriam uma boa foto. Foi quando avistou Marietta e Bob.
Seu instinto dizia que deveria segui-los. 
Marietta acabara de ser indicado para concorrer a Presidência da República.
Não era normal que estivesse tão longe de casa e andando pelas ruas quase que disfarçado.
Mais anormal ainda era o fato de que nenhum veículo de comunicação tivesse divulgado algo sobre sua chegada a Londres. 
Fernando começou então a fotografar os dois. 
Mesmo parecendo que eles estavam relaxados e alegres, ele ainda sentia que havia algo de errado naquela cena.
Ele iria segui-los para saber o que era. 
De repente, uma jovem muito bonita se aproximou deles com um mapa na mão como que pedindo informações. 
Ela mantinha o olhar fixo em Marietta e o dedo no mapa, como que mostrando um lugar. 
Ele pegou o mapa e passou para Bob. 
Os três começaram a conversar animadamente, assim distraídos , não viram quando os dois homens chegaram. 
Fernando registrava tudo.
Os homens eram absolutamente comuns vestiam calças jeans e jaquetas de couro. 
Entretanto por um descuido um deles deixou entrever por dentro da jaqueta uma pistola.
Fernando pensou em se aproximar, tirar a atenção do homem que ia em direção a Marietta, mas teve receio de provocar uma reação naquele homem. Fernando não tinha ainda certeza do que se tratava.
Poderia não ser nada, mas poderia ser por exemplo um assalto e um gesto  abrupto e o homem poderia sacar a arma e tudo poderia terminar em tragédia. 
Então Fernando resolveu continuar fotografando. 
O homem da pistola pegou a pasta de Marietta. 
A moça então correu se confundindo com a multidão. Fernando fotografava.
Os dois homens começaram a se afastar. 
Marietta e Bob se olharam e antes que pudessem dizer qualquer coisa o impensável aconteceu. 
Marietta caiu ao chão alvejado por dois tiros e Bob foi alvejado de raspão. 
Os dois homens, levando a pasta de Marietta, então entraram em uma rua e Fernando não os viu mais.
Fernando pensou em segui-los, mas resolveu que seria melhor e mais seguro ajudar Marietta e Bob.
Começou então uma correria generalizada.
As pessoas na rua corriam, gritavam e choravam pensando se tratar de um atentado terrorista. 
Fora Fernando, até aquele momento, ninguém havia reconhecido Marietta.
Fernando chamou socorro e a Polícia e tratou de ficar 
próximo a eles para poder acompanhar o desenrolar dos fatos.
Quando a Policia chegou  ele tratou de se afastar para não ser obrigado a ir a uma delegacia para prestar esclarecimentos. 
Quando as ambulâncias chegaram,  Fernando, rapidamente perguntou aos motoristas para onde eles seriam levados.
Assim Fernando pode rumar com eles para o hospital. 
Passado o susto inicial Fernando começou a rememorar os acontecimentos.
Tudo soava muito estranho para ele. 
Novamente seu instinto lhe dizia: não fora um assalto. Fernando ficou chocado ao saber da versão dos fatos que Bob apresentou às autoridades.
Ele afirmou que tudo não passou de um assalto. 
Até ai , embora Fernando estivesse desconfiado da motivação daqueles homens, ele não tinha como desmentir essa versão. O que ele não se conformou foi por Bob declarar a Policia que o assalto ocorreu em um local diferente do que realmente aconteceu.
Ele disse que os homens deram voz de assalto, o que Fernando sabe que não ocorreu, ambos apenas mostraram as armas e um deles pegou a pasta das mãos de Marietta.
Bob disse ainda que os homens atiraram quando perceberam estarem sendo seguidos por Marietta e Bob.
Por que Bob, inventou essa versão dos fatos.
Eles não fizeram qualquer gesto, nem se mexeram do ugar para tentar recuperar a pasta de Marietta. 
O que estaria por traz da atitude deliberada de Bob de alterar os fatos?
O caso então com base no depoimento de Bob,  foi então registrado como tentativa de latrocínio. 
Com o passar dos dias os médicos afirmaram que apesar da gravidade dos ferimentos Marietta iria sobreviver. 
A Polícia apesar de todos os seus esforços, não logrou êxito em encontrar os dois homens e a mulher.
Para a Polícia os três agiram juntos cabendo a mulher ser um chamariz para distrair Bob e Marietta. 
Eles tampouco conseguiram identificá-los através das fotos tiradas por Fernando.
Ele depois de enviar todo seu material para o jornal forneceu cópias para a Polícia. 
Não havia nenhum registro policial sobre eles e até mesmo a Interpol foi acionada sem sucesso. 
A matéria de Fernando acabou lhe rendendo um prêmio. 
Entretanto, não se sabe por que mesmo após as fotos serem publicadas e a matéria falar abertamente que a versão dos fatos contada por Bob, não era precisa, foi a versão de Bob que se oficializou e nada em sentido contrário foi levado em consideração. 
Fernando em vista dos fatos, encerrou imediatamente suas férias e de volta à redação, começou a investigar o caso.
Ele e  o editor do Jornal Harry Nebor, tinham certeza que algo não se encaixava nesta história toda. 
Muitas eram as perguntas sem resposta. 
O que Bob e Marietta faziam em Londres naquele momento que era tão importante para a carreira de Marietta estar no seu próprio país? 
Quem eram as pessoas que os atacaram? 
Por que Bob propositadamente alterou sua versão dos fatos para as autoridades? 
Por que apesar das fotos mostrarem o contrário a Polícia acatou a versão de Bob para o caso? 
E ainda e mais importante: se não foi um assalto, quem queria matar o candidato? 
Bom, tudo isso é outra história. 
E Fernando tinha certeza que um dia iria descobrir.




quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Padma
O que de fato aconteceu ?




A noite estava maravilhosa. 
Estava quente, mas agradável  e o céu incrivelmente estrelado.
A vista era magnífica. 
Do alto do décimo oitavo andar era possível divisar a maior parte da cidade, o que significava um show de luzes , que deixava qualquer um sem fôlego  e garantia que todos  por mais que estivessem acostumados ficassem ao menos por alguns minutos parados ali olhando para tanta beleza.
A localização do prédio na região mais alta da cidade fazia daquele terraço um ponto de observação mais que perfeito.
Já passava das onze horas e Marie não queria, não sentia a mínima vontade de dormir e ficou ali no terraço olhando para as luzes da cidade.

Era um momento tão perfeito que ela não notou o tempo passar e viajou em seus pensamentos e lembranças.
De repente  sua atenção foi chamada por um som.

Ao longe ela ouvia um barulho que a princípio não conseguia definir, ele vinha de  longe e se aproximava lentamente como que trazido pelo vento. 
Marie não deu muita atenção ao som indefinido e continuou ali, admirando a cidade.
Entretanto o som foi se tornando mais nítido e pode ser identificado.

Marie não podia acreditar no que estava ouvindo.
Eram aviões, certamente eram aviões, mas não se tratavam de aviões modernos.
O barulho que ela ouvia era de hélices, muitas hélices, girando, girando, até que quando ela deu por si começou a ver aquelas luzes e ouvir um som inconfundível.

Por mais absurdo que isso fosse, era indiscutível, eram aviões de combate e estavam atacando a cidade.
Ela os via claramente, via os aviões dispararem seus canhões e bombas e via o clarão dos alvos sendo atingidos e o som que isso gerava.
Então do solo baterias antiaéreas tentavam sem sucesso atingir o inimigo e repelir aquele ataque.

Era como se ela estivesse diante de uma grande tela, assistindo a um filme antigo de Guerra.
Ela não podia acreditar no que seus olhos viam e seus ouvidos estavam ouvindo.
Era tudo um absurdo, não podia estar acontecendo.
Não fazia qualquer sentido.
Era assustador e aterrorizante.

O barulho era cada vez maior e as luzes que subiam e desciam iluminavam cada vez mais a noite.
Então, uma bomba atingiu um prédio próximo e Marie se deu conta que precisava sair de onde estava e fugir.
Ela então andou pelo longo terraço.
Todos os quartos tinham uma janela para o terraço, e ela olhava para dentro procurando por sua mãe e seu marido. 

Marie parou na janela do quarto da mãe e a encontrou calmamente sentada na cama em posição de contemplação. Marie lhe disse que se apressasse, pois precisavam sair dali com a máxima urgência. 
A mãe entretanto, com toda calma lhe respondeu que não iria a lugar algum, pois não havia para onde ir.
Seu tempo era chegado, e  ficaria ali mesmo.
Disse ainda que Marie deveria se apressar e seguir seu marido.
Neste momento uma nova bomba caiu mais próximo ainda e Marie percebeu que não adiantaria insistir.

Com lágrimas nos olhos ela apenas disse, adeus e um eu te amo para sua mãe e voltou para dentro do apartamento  procurando  pelo marido.
Ela o chamava pelo nome, abria portas e não o encontrava. Era uma situação angustiante.
Fora o combate parecia não ter fim.
Finalmente ela se deu conta que uma luz estava acesa.
Era a luz do escritório, que ficava na outra ala do apartamento.
Com certeza ele estaria lá.
Quando ela abriu a porta levou um susto tremendo. 
Um grupo de pessoas estava lá dentro, eles estavam de mãos dadas  formando um círculo. 
Eles faziam uma oração em voz baixa.
Marie não tinha a menor ideia de quem eram aquelas pessoas ou como tinham chegado lá.
Ela não os conhecia e não conseguia entender o que estava acontecendo.

Eles se calaram ao perceberem sua chegada.
Foi então que uma voz disse ao grupo que estava tudo bem, que ela poderia ficar pois estava preparada para isso.
Ela não entendeu nada.
Preparada para o que, ela se perguntou.

Ao mesmo tempo, se deu conta, de que quem havia falado era seu marido.
Não o havia reconhecido de imediato, pois ele estava usando um tipo de máscara para facilitar a respiração.
O que seria aquilo?
Bom, como até aquele momento, nada fazia sentido, este fato era só mais uma das muitas coisa sem nexo, naquela situação.

Àquela altura, ela também não estranhou, quando o círculo se abriu e mãos se estenderam em sua direção num gesto claro de que ela deveria se juntar a eles.  
Ela hesitou  por alguns segundos  e ao perceber sua dúvida o marido a encorajou a se juntar a eles.  

Ele afirmou que tudo ficaria bem, que eles seriam retirados dali  e que não havia o que temer.
Ela então, sem pensar em mais nada,  começou a estender a mão direita que foi logo tomada por uma mulher  muito forte que a segurou  firmemente. 
Quando ia estender a mão  esquerda  para fechar o círculo novamente a porta se abriu chamando sua  atenção.
Era uma criança de uns oito anos no máximo. 
Uma menina com aparência terrivelmente assustada,  com  lagrimas nos olhos e respiração ofegante. 

Marie então a reconheceu.
Era  Padma, a filha de um casal indiano que vivia no apartamento ao lado. 

Marie então, de imediato, sem pensar, soltou a mão da mulher e foi na direção de  Padma  para abraça-la e traze-la para o círculo.
Marie sabia que não poderia deixa-la ali sozinha olhando para eles, muito menos mandá-la embora.
Ela não faria isso.

Quando ela soltou a mão que a segurava, seu marido gritou. Foram apenas duas palavras um Não e um  Volte .
Segurando a mão de Padma, Marie olhou para eles e começou a voltar em direção ao grupo.
Então o mais inacreditável aconteceu.
O circulo se fechou, e diante dos olhos dela, 
 todos desapareceram. 
Ela somente conseguiu ouvir seu  marido dizer que voltaria para buscá-la. 
Na sala, se podia ver  uma suave nuvem de fumaça branca no lugar aonde estivera formado o círculo de pessoas.
Marie ficou ali sozinha com Padma.
Lá fora o barulho das bombas ficava mais e mais intenso.
As lágrimas rolavam no rosto de Marie.
Ela não sabia o que fazer, apenas sabia em seu íntimo que fizera a coisa certa.
Proteger Padma.

Em pouco tempo o barulho das bombas cessou e não se ouvia mais os aviões.
Marie então, segurando Padma pela mão foi até o terraço.
Tudo estava quieto e escuro.
Uma escuridão total e aterrorizante.
O show de luzes não se via mais.

Ela então, sem saber o que fazer foi para o seu quarto  e se deitou com Padma.
Quando amanhecesse elas sairiam para tentar saber o que havia de fato acontecido.
O cansaço venceu a ambas e elas dormiram.
Ao acordar Marie não encontrou Padma.
Andou um pouco pela sala, e pelo não havia mais ninguém em casa.

Foi até a sacada e viu que tudo estava bem.
Tudo estava normal, não se via qualquer estrago ou sequer vestígio daquela noite pavorosa.

Ligou a TV e nenhuma notícia, acessou a Internet e nada.
Ela então finalmente se deu conta de que aquilo não acontecera.
Sim, ela tivera um sonho.
Um terrível pesadelo.

Ela respirou aliviada e sorriu.
Fora tremendamente real e assustador, mas apenas um pesadelo.

Então foi até a cozinha fazer o café,  agora estava com fome .
Então pensou em  sua mãe e no marido.
Aonde eles teriam ido tão cedo?

Marie colocou água para o café e foi até o quarto da mãe, para ver se encontrava alguma pista sobre o paradeiro dela.
Quando abriu a porta, para sua surpresa a encontrou  na cama.

Ela se aproximou e pode perceber que a mãe tinha uma expressão plácida, mas, estava sem vida. 
Seu coração disparou e ela correu para a sala para chamar por ajuda.
Enquanto andava pensou no marido, se ele ao menos estivesse em casa.

Por que ele saiu sem se despedir? 
Antes que ela conseguisse chegar ao telefone o  aparelho tocou.
Era do escritório do marido.
Sam, como eles o chamavam,  não havia aparecido para trabalhar e como ele nunca deixava de avisar caso tivesse algum problema estavam preocupados.

Marie não conseguiu conversar com a pessoa do outro lado da linha.
Ela apenas chorava, sem saber o que fazer ou dizer.
Nada mudou nos dias que se seguiram.

Marie enterrou sua mãe e passou a procurar pelo marido sem sucesso.
Então, depois de alguns dias de aflição intensa, ela se lembrou de Padma  e foi até o apartamento dela.
Como não havia ninguém perguntou  pela  família aos vizinhos e foi aí que soube que os pais de Padma tinham sofrido um grave acidente, na mesma noite da morte de sua mãe e estavam ambos em estado grave no hospital e que Padma fora levada para a casa de parentes na manhã seguinte.

Os meses se passaram sem novidades.
Marie sem ter outra alternativa se conformou e passou a esperar.

Sim, esperar, pois tenha sido um sonho, pesadelo, premonição, seja lá o que fosse , coisas aconteceram  naquela noite.
Coisas aconteceram tanto com sua mãe, como com Sam e com os pais de Padma.
Seja lá o que aconteceu de verdade naquela fatídica noite, Sam prometera voltar para buscá-la.

E ele nunca falhou com ela.