terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Bilhete
Baseado em Fatos Reais


Para entender melhor esta história é preciso voltar trinta anos no tempo e explicar algumas coisas.
Quando Amelia entrou na Faculdade,  foi trabalhar no escritório da família Gomelli.
Começou  lá como estagiária e tinha que fazer de tudo.
Ela ajudava com a correspondência, arquivava documentos e até mesmo servia café quando necessário. A Sra. Gomelli supervisionava diretamente o trabalho de Amelia e foi ela quem praticamente a obrigou a aprender a abrir envelopes grandes com todo o cuidado para que estes fossem reaproveitados, não para correspondência , mas para uso no arquivamento de documentos em geral.
Ela dizia:  Amelia, não desperdice os envelopes, eles são reutilizáveis, se você tiver cuidado não precisamos joga-los fora. Falava dos custos e até mesmo de ecologia...
A verdade, é que depois de muitos anos, este costume tão peculiar se tornou um hábito na vida de Amelia, e até mesmo em sua casa ela usava os envelopes que recebia para arquivar documentos ou suas contas pagas por exemplo.
Quando Amelia se casou ela deixou o escritório dos Gomelli e foi morar em outra cidade, passando a viver longe de sua família.
Um dia,
muito tempo depois que ela se mudou, a mãe de Amelia lhe enviou um envelope com alguns documentos para que a filha os guardasse.
Ao receber o envelope Amelia como de costume o abriu cuidadosamente, retirou o conteúdo e o guardou em uma pasta apropriada e o envelope em uma gaveta junto com tantos outros envelopes.
O tempo passou , a vida transcorrria tranquila, até que um dia Amelia recebeu a notícia que sua mãe havia falecido repentinamente. Amelia não se conformava com isso , de maneira alguma, os dias e meses que se seguiram foram de muita tristeza. O tempo passava, mas Amelia sempre sentia muitas saudades de sua mãe e ficava triste, sem conseguir superar o trauma da morte repentina de sua mãe.
Ela sempre pensava em coisas que gostaria de ter dito para ela, como poderiam ter se despedido, enfim, tantas coisas...
Só que como se diz por aí o que não tem remédio, remediado está e a vida tem que seguir em frente.
Amelia sabia disso, mas não havia o que lhe conformasse realmente e virava e mexia ela fica depressiva, sem vontade de fazer nada. Tentava e tentava, mas não conseguia seguir em frente.
Passado dois anos da morte da mãe Amelia ainda se sentia melancólica ,  era sempre muito difícil passar as datas de aniversário e Natal sem ter sua mãe por perto. E aquele dia em especial estava muito difícil para ela. Em poucos dias seria Natal e por se sentir muito triste, não havia preparado nada, nem sequer havia decorado a casa, como sempre gostou de fazer. As lembranças eram muitas e nada a confortava realmente.
O marido de Amelia, sem saber mais o que fazer, lhe perguntou antes de sair para trabalhar o que ela queria de presente de Natal.
Ela pensou, mas não sabia o que pedir, nada lhe parecia interessante ou lhe agradava.
Ela sabia que ele não lhe negaria o que ela pedisse, mas realmente não sabia o que pedir. Ela pensou em deixar que ele escolhesse, que seria bom ganhar um presente surpresa, quem sabe isso a animaria um pouco.
Enquanto pensava se deixava ele escolher ou o que pedir ao marido, ela resolveu para se distrair fazer uma arrumação em algumas gavetas. Foi quando achou uns papéis soltos e resolveu colocá-los em um envelope e depois em uma pasta para que não se perdessem. Então como de hábito abriu a gaveta em que guardava seus envelopes usados e pegou um ao acaso.
Ela sem querer o deixou cair no chão e ao recolhe-lo percebeu um pequeno pedaço de papel escrito a mão. O choque foi imenso ao perceber que era a letra de sua mãe. 
Rapidamente ela tratou de ler o bilhete que falava da falta que ela sentia de Amelia e do genro, de quanto eles eram importantes para ela e terminava dizendo : Muitas saudades, mil beijos da mamãe.
Amelia começou a chorar, mas logo parou e foi tomada por uma alegria imensa, era uma bênção achar aquele bilhete naquele momento, era o presente que seu espírito precisava, um conforto real.
Então ela olhou o envelope e se deu conta de que o bilhete esteve todo o tempo naqueles quase quatro anos, desde que recebera  a correspondência, dentro do envelope. Que ela não havia se dado conta da existência do bilhete quando abriu o envelope e ele havia ficado lá, esquecido, guardado naquele envelope. Amelia então guardou o bilhete em um lugar especial e usou o envelope como pretendia.
Ela se sentia imensamente grata por não ter achado o bilhete quando o envelope chegou pelo correio e pela Sra. Gomelli tê-la ensinado a guardar todos os envelopes grandes que recebia.  
Pois se ela tivesse visto o bilhete antes , teria lido , sorrido e provavelmente jogado fora, não teria o mesmo valor que tem hoje. Era sim um lindo presente de Natal e ela por fim, se sentia forte, se sentia pronta para seguir em frente e a primeira coisa a fazer era montar sua Arvore de Natal !


Obs:

O nome dos personagens foram modificados para preservar a privacidade dos mesmos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Lucil e o Tio Gabi .


Desde a primeira vez que Gabi viu  Lucil na maternidade seu coração ficou repleto de amor por aquela criaturinha. Ela era linda, perfeitinha, um bebê maravilhoso. Com os anos Lucil cresceu forte, saudável e muito, muito esperta. Gabi, é o irmão mais novo da mãe de Lucil , ficou responsável pela educação de Lucil. Ele a alfabetizou, mesmo antes de que ela fosse para a escola. Ela sempre dizia tio Gabi é o meu professor. Ele tratou de ensinar a Lucil coisas pouco convencionais, como aprender defesa pessoal, ela aprendeu a atirar, a construir e consertar coisas, fossem elas grandes ou pequenas. Logo ela conhecia bem o motor de um carro ou moto. Ele sempre dizia Lucil você tem que estar preparada. Ele repetia isso sempre e Lucil embora sempre concordasse  com Gabi, não sabia bem o que ele queria dizer com isso. Gabi a ensinou a cozinhar, fazer pequenas costuras, enfim ela era capaz de se virar com tudo em uma casa. Lucil aprendeu a falar inglês, francês e espanhol com Gabi. Ele a fazia estudar por horas a fio e quando ela queria parar ele insistia, só mais um pouco, você precisa estar preparada. E Lucil o obedecia sem reclamar. Ele apresentou a ela os livros , fez com que se interessasse e aprendesse Filosofia, Geografia e História. Quando Lucil fez 17 anos , Gabi começou a fazer com que Lucil aprendesse sobre temas nada usuais para garotas de sua idade, como psiquiatria, psicologia, ocultismo e principalmente sobre várias religiões. Ele sempre dzia quando a mandava ler algo diferente, "você precisa estar preparada". Gabi não só providênciava os livros, ele também sentava com ela para explicar e discutir o que ela havia lido. Gabi nunca se casou e quando o pai de Lucil morreu meses antes dela nascer ele se mudou para a casa de sua irmã.  Lucil aprendeu a dirigir e logo foi apreder a pilotar, pois Gabi achava indispensável que ela soubesse fazer de tudo. Quando a mãe de Lucil se opôs às aulas de pilotagem Gabi a chamou em particular e a convenceu. Ninguém nunca soube quais foram seus argumentos.  Enfim, Lucil e o tio Gabi eram grandes amigos e ele sempre fez de tudo para que ela tivesse uma educação mais do que completa e eclética. Quando alguém perguntava os seus motivos para dar a Lucil um educação tão diferenciada, ele só respondia : Ela precisa estar preparada e mudava de assunto. E assim o tempo foi passando.
Lucil estava se sentindo especialmente feliz. A noite estava agradável e após o jantar Gabi convidou Lucil para caminharem um pouco, o que eles faziam com certa frequencia, antes de voltarem e se sentarem para estudar algum tema o qual estava sendo apresentado à Lucil. Gabi disse a Lucil que a levaria a um lugar diferente pois queria mostrar-lhe algo de suma importância. Lucil perguntou do que se tratava e ele insistiu que não poderia explicar que ela teria que ver por sí mesma, que só assim ela entenderia. Lucil ficou muito curiosa para saber do que se tratava e assim que terminou de lavar os pratos do jantar, deu um beijo em sua mãe e saíu para encontrar Gabi, que a esperava do lado de fora da casa. Eles caminharam e Gabi não deixou que ela falasse nada apenas ele falou, sem parar , deixando claro que ela deveria prestar muita atenção ao que ia ver e que era realmente muito importante para ela. Lucil estava tão entretida com a conversa que nem se deu conta que já haviam caminhado muito e estavam na Porta do Cemitério da Cidade. Foi aí que tudo aconteceu. Lucil simplesmente travou quando olhou para o grande portão de ferro, ela ficou gelada e soltou as mãos de Gabi. Ela se sentiu enjoada e soltou pela boca um jato forte e longo . Gabi a olhava espantado, mas não disse nada, até que ele percebeu que Lucil estava sendo levantada no ar por duas figuras estranhas que chegaram voando, eram seres sem forma, apenas esvoaçavam e logo levaram Lucil para longe. Ela gritava e seu corpo serpenteava no ar. Gabi não conseguia dizer uma palavra, apenas pensava como iria explicar a sua irmã o que havia acontecido. Logo Lucil desapareceu no noite escura. Ela apenas teve tempo de soltar mais um grito de socorro.
Então Lucil acordou. Nos últimos tempos eram frequentes seus pesadelos. Lucil sentou na cama e pensou em tudo o que já havia visto e vivido em seus 30 anos, mas por mais que Gabi a tivesse preparado para a vida, ela não estava preparada para a morte. Ela se sentia muito triste desde que Gabi morreu no último verão. Suas últimas palavras para Lucil foram: você tem que estar preparada.
Ela suspirou,apagou a luz e tentou dormir outra vez, na janela um ser  igual ao que ela vira em seu pesadelo olhava para dentro do quarto...

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Happy Birthday Paula
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Paula estava muito feliz.
Era seu aniversário, tudo agora parecia estar bem.
Já se passara mais de um ano desde o atentado contra ela e Fernando e era certo que há meses ninguém os seguia. Estavam por fim vivendo um período de tranquilidade.
Enfim, ela acreditava que de alguma forma as matérias publicadas sobre os fatos ocorridos nos últimos dois anos, fez com que o Conselho recuasse e os deixasse em paz.
E Fernando logo entregaria o Dossiê sobre o Conselho para a Promotoria.
Em vista desta situação mais favorável e por ser seu aniversário ela e Fernando decidiram que para comemorar, depois do trabalho  iriam jantar em um bistrô que ela gostava muito.
O dia transcorreu de forma absolutamente normal, por volta das sete horas, seu telefone tocou.
Era Harry, o Editor Chefe,  que a estava chamando em sua sala.
Seu tom de voz não era muito animador, o que a deixou um pouco preocupada.
Quando entrou na sala, surpresa !
Seus colegas haviam preparado uma linda festa de aniversário, com direito a bolo, salgados, doces e champanhe.
Paula se sentiu grata e muito feliz.
Quando por fim ela e Fernando deixaram o prédio, Joane a nova estagiária da redação, se juntou a eles e perguntou se gostariam de tomar um café.
Eles caminharam por menos de uma quadra e chegaram a uma cafeteria que naquele momento estava quase vazia.
Pediram três expressos e ficaram ali de pé no balcão conversando animadamente.
Estavam ali há pelo menos dez minutos quando aquele homem entrou.
Por sorte ou acaso, Joane  naquele exato momento derrubou um porta guardanapos fazendo muito barulho o que fez com que Fernando olhasse em direção a porta e com isso pudesse perceber o que iria acontecer.
O homem entrou no Café já sacando uma pistola e apontou na direção deles.
Fernando sem titubear se jogou sobre Paula e Joane.
Com isso os primeiros tiros por sorte acertaram o balcão.
Apesar do susto, Paula agilmente conseguiu se esconder atrás do balcão.
O homem voltou a atirar e  Fernando conseguiu jogar uma cadeira nele, o que o distraiu e permitiu que Fernando se aproximasse dele e pudesse entrar em luta corporal com ele.
Foram momentos intermináveis e Paula apavorada viu quando Fernando foi atingido por um golpe que o fez perder a consciência.
Foi quando novos disparos foram ouvidos.
O atirador conseguiu sair da cafeteria, mas não foi longe, caiu atingido por um tiro no peito, disparado pelo Arlequim.
Outros homens entraram na cafeteria e resgataram Fernando e Paula.
Fernando ainda estava desmaiado e com um grave ferimento na cabeça e Paula havia levado um tiro de raspão no braço.
Eles foram levados para uma clínica particular e mantidos lá sob vigilância dos homens do Arlequim por  dois dias.
Não era seguro leva-los para um hospital e nem valia a pena chamar a Polícia neste momento.
Eles se recuperam bem, do ponto de vista físico, mas estavam muito abalados emocionalmente.
Fernando agora só tinha um objetivo, terminar o Dossiê e entrega-lo ao Promotor Público.
Essa situação teria que acabar, ele e Paula não podiam continuar vivendo em constante risco de vida.
O período de trégua que haviam vivido foi apenas para que eles baixassem a guarda.
Fernando jurou para sí mesmo que não cometeria mais esse erro.
Depois dos disparos quando a policia chegou ao café apenas encontrou Joane morta e  um homem que se apresentou como testemunha e contou que tudo começou com uma briga por ciúmes entre um casal. Que o homem enlouquecido de ciumes sacou de uma arma e fez disparos a esmo, e que ao perceber que acertara a jovem ambos se evadiram do local. Os funcionários do café alegaram que não presenciaram os fatos, por estarem na cozinha preparando os pedidos dos clientes e nada podiam esclarecer. Apenas confirmaram a presença do casal e da jovem que acabou morrendo.
Foi assim que o Arlequim montou a versão oficial dos fatos.




segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Uma aventura em Paris



Quem disse que coisas incríveis não podem acontecer com uma pessoa comum? 
Eu posso afirmar que sim e quando terminar de contar minha história, você vai entender e concordar comigo que ainda bem que coisas incríveis realmente podem acontecer para qualquer um.  
Tudo aconteceu em Paris. O ano?  2014, eu e minha esposa, fomos passar uns dias na Cidade Luz para comemorar nossas Bodas de Prata. Afinal , vinte e cinco anos de casados, merecem uma comemoração especial. Alugamos um apartamento no  sexto subdistrito de Paris, um local bem charmoso , que ficava próximo a estação Odeon do Metrô. A localização privilegiada do   imóvel nos permitiria fazer agradáveis percursos a pé pelo bairro ou ir com facilidade a outros pontos da cidade. E assim fizemos, indo de um lado a outro, passeando, nos divertindo, aproveitando  o melhor que Paris tinha a nos oferecer durante a primavera. 
E em uma manhã como outra qualquer resolvemos ir ao Jardim de Luxemburgo, para uma caminhada matinal e depois iriamos almoçar, sem um lugar definido, apenas andaríamos até chegar a um lugar em que sentíssemos fome. Em Paris isso era absolutamente possível. 
Saímos por volta das 10:30 em direção ao Jardim de Luxemburgo, fomos caminhando tranquilamente, conversando e olhando todas as vitrines que encontramos pelo caminho.  
Afinal, não tínhamos pressa. Minha mulher adora ver vitrines, ver preços, conversar com vendedores. Além do mais essa era uma viagem especial, em que eu queria fazer tudo e mais um pouco para que ela se sentisse feliz, assim eu a deixei a vontade para aproveitar e fazer tudo o que tivesse vontade . Assim , não é de se estranhar que só chegamos ao nosso destino inicial uma hora depois de sairmos do apartamento. Eram exatamente 11:30 da manhã e eu nunca vou me esquecer do que aconteceu a partir do exato momento em que chegamos ao Jardim de Luxemburgo. Obviamente não tínhamos a intenção de passar mais do que duas horas caminhando por lá, poderíamos voltar outra hora, era impossível ver tudo de uma só vez, lá é um lugar absolutamente perfeito para se passar o tempo em um belo dia de sol. Caminhávamos em direção ao Theatre du Luxembourg, quando nos deparamos com aqueles dois homens. Os dois estavam muito bem vestidos, mas destoavam do ambiente.  
A maioria das pessoas estava trajada com roupas informais, jeans, moletons, parkas e até alguns poucos casacos de couro, pois apesar do sol, a temperatura não deveria estar mais do dez graus celsius.Eles chamavam a atenção por estarem vestindo pesados casacos, sobre ternos escuros, de longe se podia notar que eram trajes de excelente qualidade. Um deles usava óculos escuros e observava tudo ao redor, o outro caminhava e falava ao celular. 
Em um certo ponto do trajeto quase que em frente ao Theatre du Luxemburg  nossos caminhos se cruzaram e tudo que aconteceu a partir daí foi tão rápido quanto assustador.  
Ao cruzar com o homem que falava ao celular, ele, certamente distraído com a conversa  esbarrou em mim. Nos olhamos e ele com um aceno de cabeça se desculpou. O homem de óculos escuros que vinha logo atrás me segurou pelo braço, falou algo que nós não pudemos compreender e me empurrou com violência e eu fui para traz quase caindo ao chão, mas consegui me equilibrar.Minha esposa assustada gritou com ele, que falava sem parar em um idioma que não conseguíamos entender. Foi tudo muito rápido, ele sacou do sobretudo uma pistola e a empunhou, temendo por minha esposa, num reflexo saltei sobre ele   e o derrubei com meu peso. Caído sobre ele, desferi um soco em seu rosto e tratei de desarmá-lo.  
Enquanto isso eu gritava em inglês, para que ele se acalmasse e que nada disso era necessário. Eu me levantei segurando a arma, nesse momento ele se virou e percebi que ia sacar uma outra arma. Antes que ele atirasse, eu fiz dois disparos na direção dele para que ele soltasse a arma, tenho certeza que o alvejei, mas não sei se foram tiros fatais. 
Minha esposa gritou para que eu saísse de lá, antes que a Polícia chegasse, que ela tentaria explicar o que aconteceu e procuraria ajuda. Sem pensar em mais nada, larguei a arma e saí correndo e andei vagando pela cidade até anoitecer. Eu refiz cada segundo daqueles momentos em minha mente e não consegui entender o que havia acontecido. O que aquele homem pensou que havia acontecido, por que me atacou e pior como eu iria me defender agora que havia atirado nele e fugido. Eu estava muito preocupado com minha esposa, estava profundamente arrependido de tê-la deixado sozinha ali no Jardim.  
Eu sabia que ela se sairia bem com a Polícia e que ela ficaria bem, mas me sentia péssimo em tê-la deixado naquela situação. Depois de escurecer andei por mais de duas horas, sem saber bem o que fazer. Então resolvi tentar voltar ao nosso apartamento e ver como estava o ambiente, se ela havia conseguido voltar para lá. Infelizmente o apartamento   não possuía telefone e eu estava com o nosso celular. Então me dei conta que não havia checado se havia qualquer ligação ou  recado em espera. Só então percebi que estava sem bateria, então não havia forma de fazer contato comigo. Caminhei apressadamente em direção ao apartamento, mas estava tão nervoso que acabei me perdendo. Demorei um bom tempo até conseguir me encontrar e quando finalmente cheguei na esquina do apartamento, fui abordado por dois homens a paisana que gentilmente se apresentaram como policiais. Eu pedi que eles falassem comigo em inglês, já que meu francês é bem sofrível. Me deram voz de prisão , educadamente me informaram que eu seria detido até a conclusão do processo. Eles me levariam para formalizar os esclarecimentos, já que turistas no local haviam fornecido à Polícia vídeos que mostravam todo o incidente e que mostravam claramente minha ação de defesa e que minha esposa já havia conseguido ajuda da embaixada para nos identificar como turistas. Perguntei sobre minha esposa e eles falaram que eu não deveria me preocupar que ela estava bem. Que havia sido liberada e estava em casa e que seria avisada de que eu havia sido detido. 
Perguntei sobre o homem em que havia atirado, me disseram que ele havia sido levado para um hospital e que eu deveria torcer para que ele permanecesse vivo, pois seria mais complicado resolver tudo se ele morresse. Perguntei ainda se eles tinham ideia do que motivou a ação daquele homem e quem ele era . Eles me explicaram que tudo não havia passado de uma infeliz coincidência.  
O homem em que esbarrei é um importante político do leste europeu e esta em Paris para fazer graves denuncias contra o governo de seu País e que ele havia recebido graves ameaças contra sua vida no hotel. Então ele resolveu sair e ir para um local público,  e quando aconteceu o choque acidental no Jardim, enquanto ele falava ao telefone  o segurança dele que não fala francês ou inglês, pediu que eu me afastasse e me identificasse, o que obviamente eu não compreendi. E que pela minha inação acabou levando a toda aquela confusão.  Então eu agradeci as explicações e pedi se poderia antes de ser levado para interrogatório, ir até o apartamento junto com eles , colocar um agasalho e ver minha esposa, argumentei que seria uma longa noite e até mais  que isso e que já que os fatos estavam bem esclarecidos seria apenas uma questão de boa vontade me deixar passar em casa antes de irmos. Eu sinceramente falei isso por falar, pois jamais acreditei que eles teriam essa boa vontade toda, mas não custava tentar, como sempre dizia minha esposa. Eles concordaram e caminhamos até o apartamento. Quando chegamos na porta do prédio um deles falou que esperaria ali e o outro deveria me acompanhar, me deram apenas dez minutos  para trocar de roupa e ver minha esposa. Toquei a campainha do interfone e quando me identifiquei, a porta se abriu e entrei na frente. Neste momento algo que até hoje eu não posso afirmar o que foi  aconteceu e as luzes se apagaram e eu parei por uma fração de segundos, como para reconhecer o local e saber por onde andar. Então firmei meus pés e segui em frente e me deparei com uma cena inesquecível. Era dia novamente, eu estava no Jardim de Luxemburgo e minha esposa, me chamava e perguntava se eu não estava ouvindo, já que estava parado ali inerte, enquanto ela tirava fotos do Theatre du Luxemburg . Eu sinceramente não consegui entender o que estava acontecendo, o que havia acontecido, uma coisa só era certa eu estava ali, minha esposa  estava ali e tudo parecia estar bem, como se nada daquelas coisas terríveis houvessem acontecido. 
Eu então concluí que tinha tido algum tipo de alucinação que fora causada talvez por uma queda nos níveis de açúcar no sangue, sei lá. A única coisa que sei é que racionalmente aquilo não podia ter acontecido.    
Então eu sorri para ela, a peguei pela mão e saí caminhando, dizendo a ela que estava com fome e queria procurar um restaurante para almoçarmos. Foi então que olhando para a frente vi aqueles dois homens outra vez. Fiquei sinceramente aterrorizado e parei subitamente. Então eles passaram por nós  e ambos nos olharam com um misto de surpresa e um vislumbre de reconhecimento, como se eles já nos tivessem visto, mas não sabiam de onde. O homem do celular, então, por educação fez um cumprimento com a cabeça o qual respondi da mesma forma, já o outro, bom, ele me olhou de alto a baixo, resmungou algo que não compreendi. Obviamente em um primeiro momento não falei nada para minha esposa. 
Terminamos tranquilamente nossa viagem de comemoração e voltamos para casa. 
Eu havia decidido não pensar mais no que havia acontecido em Paris até que me deparei com as manchetes nos principais portais de  internet que mostravam a foto  daquele homem e traziam denuncias feitas por ele que geraram um grande escândalo de corrupção que envolviam altos funcionários do governo de seu país. Falava ainda das ameaças de morte que ele vinha recebendo. Então me dei conta do quão estranho era tudo aquilo, que tudo que eu estava lendo não era novidade para mim. 
Você deve estar pensando o que eu fiz, a partir daí. Eu chamei minha esposa e lhe contei tudo, ela ouviu tudo com a tranquilidade que lhe é peculiar e me orientou no sentido que abrisse minha mente, aceitasse que fatos, que coisas incríveis, além da nossa compreensão podem acontecer quando menos se espera, e que nós não temos  qualquer tipo de controle sobre isso. Depois dessa conversa, segui a minha vida,  com a certeza que é possível que a vida nos de uma segunda chance, se algo sair do rumo.     
  

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Hunter


Já passava das dez da noite quando ele foi para o estacionamento e saiu dirigindo calmamente pela cidade em direção ao seu escritório.
Era domingo, mas isso não fazia a menor diferença para ele.
Já fazia muito tempo que os dias da semana não importavam mais.
Todo dia era dia de trabalho, compromissos e obrigações sociais.
E hoje,  ele estava cumprindo agenda desde cedo.
Pela manhã, ele assistiu a um culto em uma Igreja Batista, e após participar de um animado café da manhã, falou como convidado para um grupo de senhoras
Todos os anos elas o convidam para uma preleção, sobre algum tema de interesse da comunidade.
Depois almoçou com representantes de um time de futebol que tiveram a ideia de levar ao almoço os dois principais jogadores do time.
Fato que sinceramente só serviu para tumultuar o encontro, uma vez que uma multidão de fãs, logo os descobriu  e assim durante todo o almoço uma verdadeira romaria de crianças e seus pais pediam fotos e autógrafos.
Quando finalmente ele conseguiu encerrar esse almoço foi ao encontro de sua esposa para visitarem um lar para idosos onde eles eram patrocinadores fieis e voluntários sempre que possível.
Já era noite quando eles saíram do lar para idosos e foram ao lançamento do novo livro de um prestigiado escritor que é amigo de universidade dele.
E de lá eles ainda tiveram fôlego para irem a um jantar com um grupo de amigos que costumava se reunir semanalmente.
O jantar estava muito animado, ele estava bem relaxado, mas chegada a  hora, beijou sua esposa, sussurrou algo em seu ouvido,  sorriu e rapidamente se levantou saindo à francesa.
Ela já estava acostumada com este ritmo frenético de vida e não estranhava mais nada.
Para ela tudo isso, era normal.
As ausências dele ou o excesso de compromissos que ambos tinham que cumprir, juntos ou separados já fazia parte da rotina.
Ela continuou tranquilamente na mesa como se nada houvesse acontecido.
Ele que depois falasse com quem lhe parecesse importante e pedisse desculpas.
E na verdade estes amigos, que eram os mais próximos do casal,  já estavam acostumados com essas saídas  à francesa dele e não faziam mais qualquer tipo de pergunta, que eles já sabiam jamais seria respondida com sinceridade.
Ele gostava muito de sua esposa e amigos, mas para ele agora a prioridade era chegar ao escritório e esperar pela ligação que ele sabia que sob nenhuma hipótese poderia deixar de atender .
Ele vivia sempre ligado ao relógio e controlando sua agenda, mas nem sempre  conseguia se desvencilhar de seus compromissos com muita antecedência, muito embora soubesse que nunca poderia se atrasar. para seuum compromisso como esse .
O telefonema noturno de instruções e informações, era assim que era chamado.
Ele sabia bem que  O Conselho  não admitia erros ou atrasos.
Quando ele era informado que receberia um telefonema destes, após confirmar sua disponibilidade, não podia faltar ou se atrasar.
Isso era considerado falta grave contra as Normas do Conselho.
E coisas assim eram consideradas ofensas graves contra os próprios Conselheiros.
Ele chegou ao prédio em aproximadamente dez minutos, subiu pelo elevador de serviço para ter certeza que não seria notado e foi direto para sua sala.
O prédio neste horário estava vazio e isso era muito bom.
Assim ele não corria o risco de ter que parar para conversar com alguém, o que poderia lhe atrasar e atrapalhar seus planos.
Ele entrou em seu escritório e foi direito para sua sala.
Era uma bela sala.
Na verdade todo seu escritório era perfeito, estava muito bem localizado e fora decorado  com todo o esmero por sua mulher.
Ela fizera questão de tomar conta de cada detalhe, de escolher cada móvel, cada tapete, quadro ou escultura que compunham cada  um dos ambientes.
Ela fizera um trabalho perfeito, como sempre.
Sua mulher era perfeita, bonita, inteligente, dedicada, boa esposa e boa mãe.
Sempre alegre e companheira tinha uma capacidade imensa de compreender todas as facetas da vida que ele levava.
O telefone tocou, interrompendo seus pensamentos.
Ele atendeu imediatamente.
A voz do outro lado da linha,  sem perguntar qualquer coisa foi logo dizendo que o Conselho se reunira em Sessão de Deliberação e decidira por unanimidade aprovar as duas pautas trazidas por ele à última Sessão Ordinária .
Continuou dizendo que os Conselheiros, após considerarem toda a exposição de motivos apresentada por ele e analisarem os últimos fatos ocorridos, resolveram por bem pela aprovação de seus pedidos. Ele sem dar uma palavra, respirou aliviado.
A voz do outro lado da linha continuou falando que a partir de agora ele deveria esperar pelos próximos acontecimentos.
E que ele não deveria esquecer que a  total discrição e absoluto sigilo eram indispensáveis para o bom andamento de todo o processo.
Disse ainda que as ordens executivas já haviam sido dadas e que já estavam em andamento, assim sendo, as providências já estavam em curso e que isso era tudo o que ele precisa saber por hora. Hunter disse a voz - era assim que ele era chamado dentro do Conselho, todos lá tinham um codinome - bom trabalho, agora vá para casa e descanse.
Ele agradeceu e desligou.
Ele se serviu de uma dose de uísque com duas pedras de gelo e o saboreou bem devagar.
Depois ele abriu uma gaveta em sua mesa e  pegou duas pastas de dentro.
As duas pastas estavam devidamente etiquetadas.
Uma dizia: Dossiê Paula Vaz e a outra Dossiê Fernando Maia.
Ele as colocou no cofre.
Antes de sair ele checou sua arma,
Este era um hábito e um cuidado que ele jamais desprezava.
Só depois ele foi para casa, rever sua mulher e filho.
Ele sabia que a partir de agora ele tinha muito a fazer, mas neste momento era hora de descansar.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Noiva
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Enquanto Fernando olhava para o altar sua mente vagava por inúmeros locais.
Locais maravilhosos, locais comuns, mas todos locais em que estivera com Paula.
Quantas coisas passaram diante de seus olhos.
Quantos momentos, especiais ou não, mas todos vividos junto com Paula.
E esse era mais um destes momentos especiais.
Paula adorava ir a casamentos e ele sempre a acompanhava.
E Fernado todas as vezes se imaginava  casando com ela.
Este era seu sonho, casar com Paula.
Ele tinha certeza que a amava desde sempre.
Ele a amava por tudo que passaram juntos, todos os bons momentos que tiveram juntos, as aventuras, os perigos, as viagens e até mesmo algumas brigas.
As brigas eram eventuais, mas existiam, e ele, bem , ele nunca conseguia ficar brigado com ela.
Como ficar sem olhar naqueles olhos , tocar aqueles cabelos, enfim, para ele era impossível pensar em ficar longe dela.
Para Fernando era inadmissível pensar em viver longe de Paula.
Ela era a razão de tudo o que ele havia feito, pessoal e profissionalmente.
Desde a Faculdade, ela era seu estimulo, seu motor, seu combustível.
Ele queria tanto se casar com ela que já havia imaginado inúmeras vezes como ela ficaria vestida de noiva, segurando um lindo arranjo de rosas, cor de rosa e brancas.
Ele pensava como ficariam com a grinalda, seus lindos cabelos pretos, emoldurando seu rosto claro, sua pele perfeita.
Sim, ele achava Paula perfeita, em todos os sentidos.
Para ele Paula, não tinha qualquer defeito, era linda, inteligente, bondosa, a perfeição em forma de mulher.
Em síntese Fernando a amava acima de tudo.
Ele por vezes pensava sobre os sentimentos dela.
Será que ela também tinha medo de perde-lo?
Será que ela também o amava?
Ele preferia não pensar nisso, pois pensar em ficar sem ela, fosse como fosse, era absolutamente doloroso para ele, principalmente nos últimos tempos diante de tantos riscos que ambos correram,
Nunca antes, a possibilidade de morrer de forma imediata, fora tão real.
Se não fosse pelo Arlequim, ele e Paula, ou pelo menos um dos dois já poderia estar morto.
E isso com certeza seria terrível.
Apesar de tudo, ele se sentia um pouco mais calmo desde o seu sequestro no Natal.
Afinal, desde então não havia tido qualquer contato com o Arlequim ou nenhuma nova ameaça
contra eles.
E agora que o dossiê Marietta estava quase pronto, tudo deveria se acalmar e suas vidas poderiam voltar definitivamente ao normal.
Paula, ele pensou, era muito corajosa vivia o dia, não temia os riscos ou as ameaças a que estavam sujeitos, estava enfrentando todos os acontecimentos recentes, com muita bravura e não perdia a alegria.
Os pensamentos de Fernando foram interrompidos por Paula.
Ela tocou seu braço, para chamar sua atenção e perguntou se estava tudo bem.
Ele sem graça sorriu e respondeu que sim, que só tinha divagado um pouco olhando a arquitetura da Igreja.
Paula continuou a conversa, falando sobre uma matéria em que eles estavam  trabalhando.
Ela falou sem parar por pelo menos dez minutos, os quais Fernando atentamente ouviu o que ela dizia.
De repente ela falou: olha a noiva chegou !
Os olhos dela se iluminaram seu sorriso abriu e ela apertou o braço de Fernando com força.
Ele sorriu da alegria quase infantil dela.
O dia estava perfeito, a Igreja estava lindamente adornada, a noiva estava linda, seu vestido era magnífico, os adereços perfeitos.
Então a marcha nupcial começou a tocar.
Fernando suspirou e pensou, será que algum dia eu terei coragem de dizer a Paula o quanto a amo?



Fotos: Montagem / Reprodução Internet
   

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Resgate
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Fernando acordou com  muita dor de cabeça e um gosto estranho na boca.
Olhou para os lados e percebeu que não tinha a menor ideia de onde estava.
Também havia perdido a noção do tempo.
Sentiu dor e  olhou seus pulsos e percebeu que além das marcas que ganhou no último Natal , haviam novas marcas que mostravam que ele estivera fortemente amarrado.
Ele tentou lembrar do que havia acontecido, mas suas lembranças se resumiam a ter chegado ao Bar do Joe para assistir ao jogo e comemorar que enfim estava de férias. Lembrava de  ter tomado algumas cervejas e ter conversado com uma moça que se sentou ao seu lado.
Era uma moça muito bonita, ela chegou sentou no balcão, pediu uma cerveja e logo puxou conversa. A conversa fluiu de forma a que logo o jogo foi deixado de lado.
Ele lembrava do sorriso dela, enquanto tomavam umas doses de tequila e nada mais. Neste ponto acabavam as lembranças.
Ele então se levantou e tentou achar uma forma de ver o que acontecia lá fora.
Dava para perceber que ele estava em uma casa em um lugar bem afastado pois apenas podia ouvir algum barulho ao longe.
Nada de carros ou conversas.
Ele ficou alí tentando ouvir algum som que pudesse ajudar a identificar sua localização ou mesmo quem o estava mantendo preso.
Ele pensou em gritar, chamar alguém para dizer que havia acordado, mas achou melhor não fazer isso, antes de tentar se localizar, quem sabe se viessem até ele, não o iriam drogar outra vez. Ao que parecia eles o queriam sedado, seja lá , quem eles fossem, não o queriam morto, se não,  com certeza já o teriam matado.
Cansado Fernando sentou e ficou alí ouvindo o silêncio que agora para ele parecia terrível. Teriam deixado ele alí sozinho? Seria isso possível?
De repente um forte estrondo, tiros, gritos, ele se levantou e saiu da frente da porta, para se proteger.
Mais um estrondo e a porta caiu, antes que ele pudesse identificar alguém uma luminosidade o cegou.
Ele então só sentiu uma forte pancada na cabeça.
Quando acordou novamente estava em seu quarto. 

Era noite, ele se sentia bem, um pouco sonolento, mas bem. 
Tentou entender o que havia acontecido. 
Teria sido um sonho? 
Não, as marcas estavam em seus pulsos e sua cabeça doía e claro tinha um galo. 
Aquilo aconteceu. 
Bom, ele pensou, aquilo o que?
Ele só tinha uma certeza,
 sua vida havia corrido perigo, mais uma vez.
Os perigos se tornaram uma constante e tudo o que estava acontecendo estava ligado ao fato de ter
 presenciado o atentado a Marietta  e afinal desde então tanta coisa havia acontecido. 
A invasão ao Jornal, receber aquele dossiê no Baile de Máscaras, a invasão da casa de Paula  e o atentado no Parque, enfim sua vida nunca mais fora normal.
Embora muito tempo já houvesse se passado desde o ocorrido em Londres, tudo estava ligado e a cada acontecimento,depois de algum tempo, novos ataques voltavam a acontecer.

Ele precisava analisar os fatos ocorridos forçar suas últimas lembranças dos acontecimentos.
Pensando com calma  concluiu que, a moça fora uma isca, ele fora dopado no Joe, sequestrado, mantido em cativeiro e resgatado, já que estava em casa.
Como tudo aconteceu, aonde estivera, por quanto tempo, o que aconteceu no tempo que estivera no cativeiro na casa e quem o salvou, tudo era dúvida.
Claro que   tinha lá suas desconfianças, que eram na verdade quase que certezas.. 

Muito provavelmente, mais uma vez  "O Conselho" estava envolvido no sequestro e  o Arlequim deveria estar por traz do seu resgate, salvando sua vida novamente.
Outra vez o Conselho tivera chance de o matar, mas não o fez. Por que?

Pensou em Paula, queria dividir suas dúvidas com ela, contar o que havia acontecido e claro saber se ela estava bem, então ligou para ela, para sua decepção uma mensagem dizia para deixar recado.
Claro,  ela também saíra de férias,naquele dia e iria viajar,
ele pensou. 
Resolveu ligar para Harry, mas isso podia esperar.
Ele sentiu fome e foi até a cozinha, mas quando chegou na sala encontrou, para sua surpresa na mesa de jantar uma caixa. 
Dentro dela havia  uma série de jornais que deveriam ser dos dias que esteve fora, uma garrafa de um vinho de excelente qualidade e um grande e elegante Panetone. 
Como ninguém além de Paula e do Zelador tinham a chave de seu apartamento, então por mais irônico que fosse, deveria ser um presente do Arlequim.
Foi então que ele vendo os jornais  percebeu que estivera fora por quatro dias.
E como ele estava de férias e poderia ter ido viajar ninguém sentiu sua falta.
Se ele tivesse morrido, demoraria muito tempo para que alguém se desse conta de seu desaparecimento, a menos que seu corpo fosse encontrado.
Como estava ainda um pouco sonolento demorou um pouco para se lembrar de Scratch seu cão Labrador. Fernando foi até a área de serviço e o encontrou alí dormindo.
Ele estava bem e acordou com a chegada de Fernando.
O zelador o havia alimentado e levado para passear, ele sempre fazia isso quando Fernando não estava e certamente como Fernando muitas vezes viajava por vários dias, o Zelador, não achou nada de anormal nestes dias em que esteve fora.
Ele voltou para a sala e mexeu novamente na caixa, nela h
avia também um fino cartão que dizia apenas "Feliz Natal".
Realmente havia algo de intrigante no Arlequim e em seu comportamento.
Ele era ao mesmo tempo um homem duro, um soldado bem treinado e cavalheiro de gestos elegantes segundo Paula o havia descrito.
Quem ele realmente era e a quem representava, pois certamente não estava sozinho, ainda era uma incognita.
Por sorte, ele havia escapado mais uma vez, só que agora as coisas seriam diferentes.
Ele usaria seu tempo livre para escrever um dossiê e quando este estivesse pronto entregaria todas as provas que tinha juntado ao longo deste ano, para finalmente procurar as autoridades e publicar tudo o que sabia a fim de forçar as investigações.
O Conselho finalmente seria investigado, quem sabe desmascarado, de qualquer forma ao menos teria que se expor e mostrar sua verdadeira face e extensão, mas para tudo isso haveria um tempo, teria que ser um movimento de cada vez .
Agora era hora de descansar e recuperar as forças, para depois seguir em frente. 

Fernando então sorriu.
Feliz Natal ! Ele falou em voz alta lendo o cartão novamente.
Ele havia se esquecido, já era Natal outra vez e era verdade, seria um Natal feliz  pelo simples fato de ainda estar vivo.